Recebi este e-mail de uma pessoa a quem prezo nesta quinta, dia 28/10, a 3 dias das eleições:
“De: XXXXXXX
Assunto: Homofobia
Gasparetto,
Soube com ESPANTO que você vai votar em YYYYYYYYYY, que se comprometeu com WWWWWWWW contra o projeto de lei de considerar Homofobia no mesmo patamar do racismo. É um puta retrocesso para os direitos das minorias e inconcebível para mim que você, que pertence a elas, apoie este tipo de candidato. Se não gosta de ZZZZZZZZ, vote NULO, como o XXXX, mas não vote em alguém que está sendo apoiadX pelos mais obscurantistas setores da sociedade, tais como evangélicos e católicos fundamentalistas (Deus fez macho e fêmea, o resto é doença!), skinheads (lembre-se dos ataques a homossexuais em SP), integralistas, direita militar (sites coturnosoturno e ternuma), TFP e integralistas (eles existem ainda!).”
Como não estou em meus melhores dias, antes mesmo de ler, apenas vendo o assunto e a fonte do e-mail, respondi apenas:
“XXXXXXX, adoro vc, mas O VOTO É MEU! Bjs, Gaspari”
Depois li e pensei, pensei, pensei ... pensei em respostas, em possibilidades, em ofensas. Em ser direto e delicado, em ser direto e estúpido ao mesmo tempo. Mas não respondi.
Há vários aspectos que eu poderia abordar na resposta ao remetente do e-mail acima. Poderia dizer que essa pessoa, a quem admiro e respeito, ganhou posições e certa estabilidade, nos últimos anos, em uma empresa do setor de energia controlada pelo governo sem passar em concurso. Também poderia questionar a origem dos bens dessa pessoa, que, pelo pouco que sei, herdou muitos ativos, o que lhe rendeu certo conforto e estabilidade – e rende até hoje. E ainda questionaria como uma pessoa que viveu a "época de chumbo" da ditadura, na qual se lutava pelo direito de votar e escolher nossos governantes, prega naturalmente o voto nulo - como se voto nulo ganhasse eleição e presidisse um país.
Entretanto, aqui, no meu espaço, resolvi falar de apenas um item que derruba por terra a observação acima: IDENTIDADE.
Stuart Hall, um antropólogo negro de origem caribenha, certa vez tratou do tema identidade. E concluiu, basicamente, o que todos nós deveríamos saber: somos multifacetados, com identidades múltiplas, uma colagem étnica, econômica, social e cultural. Ou seja: não temos apenas UMA identidade. Somos muitos em um só.
No “apelo desesperado” acima, meu (minha) interlocutor (a) certamente se esqueceu disso. E como aqueles que votam em um candidato X, Y ou Z porque “vai me dar emprego”, “vai construir minha casa”, ou “vai asfaltar minha rua” – ou seja, visam apenas o benefício próprio, não coletivo – , imaginou que a palavra “homofobia” mudaria minha escolha eleitoral.
O que meu (minha) interlocutor (a) ignorou – talvez mesmo por ignorância -, é que não sou apenas gay. Antes de tudo, sou gente. Depois disso, sou gay, branco, olhos claros, jornalista, nascido na Baixada Fluminense, sou casado, tenho filhas, recebi heranças sociais e culturais de meus pais e irmãos, um pouco de meus avós, com os quais pouco convivi, e muito de meus amigos e pessoas próximas que vêm me acompanhando nesses 38 anos.
Meu projeto de Brasil não pode ser focado apenas na causa gay. Claro que estou ligado nela e quero mudanças positivas – o que o governo atual, mesmo sendo do PT de Marta Suplicy, autora do projeto de união civil estável, não conseguiu (ou não quis) em oito anos. Mas reconheçou que, além disso, há outras questões muito mais cruciais nesse momento.
Homofobia pode – E DEVE! – ser questionada na Justiça, dar processo e indenização, até prisão, se extrapolar. Isso, felizmente, já acontece. Mas, infelizmente, falta de apreço à educação, à saúde, às regras democráticas, às leis eleitorais, à opinião divergente, isso nem sempre vira processo judicial. E anda devagar demais para um país com uma dívida histórica de 500 anos, e que vem mudando positivamente HÁ 20 ANOS – não há apenas oito anos, como alguns gostam de propagar por aí com claros fins eleitoreiros.
Portanto, independente de quem ganhar essa droga dessa eleição, continuarei lutando contra a homofobia. Mas também atacarei a falta de recursos para a educação – aliás, sociedade bem-educada tende a ser mais TOLERANTE COM TUDO -, a saúde, o saneamento, etc, etc, etc. Porque, como disse, sou uma colagem de preocupações. E, para mim, de nada adianta ter uma lei protegendo A, B ou C se o valor principal – ser gente, independente de cor, sexo, crença etc, etc, etc – continuar sendo negligenciado.
Por isso, para votar no domingo, não esqueça de levar sua(s) identidade(s). Doa a quem doer.
PS: É óbvio que, embora eu tenha omitido os nomes dos candidatos e seus "parceiros", está claro em quem vou votar. Mas também espero ter ficado claro que meu objetivo não é convencer indecisos. Quero apenas SER RESPEITADO no meu direito básico de ser gente e de, como cidadão brasileiro, votar em quem eu quiser. Até porque, o artigo 5º da Constituição Federal de 1988 deixa claro: "Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza". Se os governantes já cumprissem isso, fossem de qualquer partido, seríamos, enfim, um povo.